Derrame mental (Larghissimo ma non troppo)

Terça-feira, 14 Junho, 2011 at 17:08 Deixe um comentário

Sempre fui assim. Recto. Frontal. Desagradável. Com noção de verticalidade. Com a consciência limpa. Quando me deitava ouvia uma voz dentro de mim: “Não deves nada a ninguém. Seja dinheiro, valores ou ideias”. Uma educação salazarista que sempre contestei (mas que hoje vejo que apenas está desfasada nos valores, que não existem na nossa sociedade) que me foi incutida por quem sempre me apoiou, mesmo quando descobriu que as minhas ideias eram muito diferentes das dela, tendo feito frente a outras pessoas, desenterrando velhos machados de guerra, lançando olhares tão trucidantes como a mais afiada das facas, apenas para me defender. Esses valores que ela me incutiu, estão cá. A ela devo isso. E nem todos os dias da minha vida seriam suficientes para lhe agradecer tudo o que ela por mim fez. E de que me valeram estes valores? Tirando o facto de me tornarem claramente frustado em variadas frentes, pouco me valeram… talvez apenas perante meia dúzia de pessoas terei algum valor. Pouco mais de residual…mas sempre é melhor que não ter qualquer valor.

Mais de uma década de dedicação a uma Casa, com uma postura rígida e claramente vertical, valeu-me uma carreira tristemente horizontal. A defesa de causas comuns a todos apenas me cobriu de ridículo por ser o único que claramente punha o colectivo à frente do individual, além de me tornar um elemento incómodo para quem me rodeava e pretendia a todos os níveis aparecer, custasse o que custasse. Nem que fosse a amizade cimentada durante anos. Para alguns, terei sido um excelente escadote para os seus fins. Outros ter-me-ão visto como o palhaço que, tendo mais valor pessoal  que eles, acreditava no sistema. Nos valores. E agradeceram o facto de ser tão tanso ao ponto de acreditar que esse mesmo sistema funcionava…O facto de ver pessoas tratadas como números é-me doloroso. Ser tratado como se fosse apenas mais um para a estatística deixa-me frustrado. Não sou diferente dos outros, mas penso de forma diferente…e como tal acho que me devem respeitar como sou. Assim com devem respeitar os outros…e não respeitam. Uma vez mais, frustrado pelo facto de nada poder fazer contra isso.

De miúdo pensei em singrar nas águas pantanosas da politica. De facto, gostava de ver a Assembleia da República e considerava os nossos deputados pessoas integras, inteligentes e que faziam o melhor pelo nosso Pais. O tempo desenganou-me mas acredito que nem todos sejam maus…são é cada vez mais deputados ruins que afastam os competentes. Como em tudo da nossa sociedade o mediocre impera…e é aplaudido de pé. Mas adiante. O facto de não ter escolhido um dos partidos do arco do poder apenas me trouxe dores de cabeça. Incluindo o facto de ver pessoas que julguei exemplos mudarem de lado da barricada com uma facilidade fantástica, provavelmente devido à sua subida maleabilidade dorsal (e à falta de carácter). Já pensei em integrar um dos partidos do poder como militante de base. Mas teria de pedir desculpa a meu filho se um dia ele me questionasse sobre esse meu passado tão poluto quando quero que ele veja que o pai defende valores como a honestidade, a frontalidade e a franqueza. Uma vez mais frustrado por não fazer algo que me daria um gozo enorme fazer.

Ainda para fim de peça…o facto de não conseguir pensar apenas em mim mas no colectivo (sejam eles 100 ou apenas 2) torna-me tremendamente frágil, apesar deste aspecto robusto e bonacheirão. E é essa falha que me desgasta, me magoa, me dilacera. E não ajuda nada na conjuntura actual. Há quem sugira a minha ida a um psicólogo…e considero fortemente essa hipótese. A bem da nação. E ao contrário do que julgam certas pessoas, não escrevo este post de casquinha na cabeça. Simplesmente estou farto de não ser levado a sério. Nunca.

Nota de rodapé: Para quem desconhece a expressão no título fica aqui a referência 


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Homens e animais – Alguns pontos de consideração. Absorvencias…

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